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Papo sério

Este é o torcedor do Fortaleza que faz os mosaicos mais legais do futebol brasileiro

O cearense Paulinho Mosaico se especializou na arte de fazer mosaicos em estádios de futebol

Há sete anos, Paulinho (dir) comanda a festa que rende elogios mundo afora (Foto: Pedro Chaves)
Desde 2012, Paulinho (dir) comanda a festa que rende elogios mundo afora (Foto: Pedro Chaves)

O ano era 2012, e o Orkut ainda estava vivo. Num grupo de fãs do Fortaleza na rede social, Paulinho propôs uma festa diferente para o jogo contra o Náutico, pela Copa do Brasil. O torcedor queria fazer um mosaico na arquibancada do PV, que nem aqueles de grandes clubes europeus. A galera não deu corda, mas ele foi em frente. Investiu R$ 1.200 do próprio bolso e coloriu um dos quatro setores do estádio. Começou ali uma história que acrescentou “mosaico” ao seu nome.

João Paulo de Souza Lima, o Paulinho Mosaico, é o responsável pelos mosaicos grandiosos que tornaram o Fortaleza uma referência nesse tipo de festa antes de jogos no país. Já são sete anos fazendo o trabalho, com cerca de 30 mosaicos produzidos em grandes momentos do time. Desde 2014, com um grau de dificuldade a mais: ele passou a cobrir 100% das cadeiras do Castelão.

A primeira vez foi na decisão do acesso à Série B, contra o Macaé. “Inspirado na gente, o Ceará começou a produzir mosaicos também. Então resolvemos fechar toda a arquibancada”, conta Paulinho, de 28 anos.

O jogo seria às 18h de sábado, e o torcedor chegou a meia noite de sexta. A trabalheira só acabou às 17h, pouco antes da partida. “Foi desgastante, mas valeu a pena”.

Para executar tudo, Paulinho conta com a ajuda de voluntários, 60 deles fixos – a Equipe Mosaico. Na madrugada anterior ao jogo, eles se reúnem para posicionar os papéis e bandeirinhas nas cadeiras.

“Nas primeiras vezes que preenchemos o estádio todo, levávamos 15 horas de trabalho, ininterruptamente. Hoje, fazemos em 10 horas”, relata o cearense.

Antes disso, porém, é preciso idealizar o desenho e a inscrição motivacional. Paulinho utiliza um programa de computador. “Divido o Castelão por blocos. São 24 entradas, então cabem 24 letras, garantindo espaço para formar as palavras. Quando a gente chega lá, oriento as equipes sobre onde deve ficar cada papel”, indica o torcedor. “É uma mini arquitetura”.

“Nas primeiras vezes que preenchemos o estádio todo, levávamos 15 horas de trabalho, ininterruptamente. Hoje, fazemos em 10 horas”. (Paulinho Mosaico)

Paulinho coordena a distribuição de 64 mil papéis nas cadeiras do Castelão (Foto: Acervo pessoal)
Paulinho coordena a distribuição de 64 mil papéis nas cadeiras do Castelão (Foto: Acervo pessoal)

Quem banca a conta

O custo da festa é bancado por diversas fontes. O grupo arrecada dinheiro com urnas no estádio, doações online e vaquinhas entre torcedores com boa condição financeira. Além disso, o verso dos papéis do mosaico é destinado a patrocínios. Toda quantia é bem-vinda.

Afinal, cada um dos 64 mil papéis custa entre 17 e 22 centavos. No total, incluindo o transporte e a alimentação da equipe de montagem, a operação alcança cerca de R$ 15 mil.

Porém, um importante apoio surgiu de um conselheiro tricolor, Mozart Martins, proprietário da Gráfica Cearense. “Por ser torcedor e admirar nosso trabalho, ele vende o papel entre 1 e 5 centavos, um preço bacana que reduziu os gastos”, agradece Paulinho.

Alguns desses mosaicos levaram o nome do Fortaleza, mesmo estando na 3ª divisão nacional, até terras distantes. “Muitas páginas de torcidas e de clubes publicam vídeos elogiando, inclusive em países como Bangladesh, Nigéria, Marrocos…”, enumera Paulinho.

O nível de complexidade tem subido jogo a jogo. “O melhor mosaico até hoje, acredito eu, foi o do centenário (em 2018), contra o Paysandu, com direito a banda no gramado. Muita gente ficou emocionada”, resgata.

O 1º mosaico de Paulinho foi feito em 2012, em jogo do Fortaleza no PV (Foto: Acervo pessoal)
O 1º mosaico de Paulinho foi feito em 2012, em jogo do Fortaleza no PV (Foto: Acervo pessoal)

Hobby virou negócio

Com a repercussão dos mosaicos do Fortaleza, Paulinho já foi contratado por clubes e torcidas do país para executar a mesma festa em outras cidades. O primeiro foi o América-RN, em 2015, serviço que já foi repetido algumas vezes nos últimos anos.

Depois vieram Bahia, Paraná, Santa Cruz e Vila Nova-GO, além de sondagens de São Paulo e Remo que não se concretizaram. “Vou sozinho e conto com uma equipe de montagem formada por torcedores locais”, explica.

“O Nordeste não tem um futebol de elite, mas fazemos uma festa de elite”.

O preço do serviço varia – já foi de R$ 3 mil a R$ 5 mil. “Muitos dizem que eu cobro pouco, que o futebol é rico e poderia pagar mais, mas eu fico satisfeito com o valor, e gosto também de ver a festa”, aponta o empresário do ramo de bordados computadorizados.

“Recentemente fui procurado para fazer algo no Carnaval do Rio de Janeiro e de São Paulo, e na festa do Boi Garantido (em Parintins-AM). Vamos ver como é que fica”, adianta.

Só tem um clube para quem Paulinho não trabalharia: “O Ceará”, ri.

“O Esporte Interativo me procurou uma vez, porque queria que a final da Copa do Nordeste (de 2015) tivesse cara de Liga dos Campeões da Europa. A ideia era que os jogos recebessem mosaicos, mas só fiz o do Bahia; do Ceará, não. Respondi que assim ficava difícil, eu seria chamado de ‘mercenário’ pela torcida do Fortaleza”, relembra. Claro, negócios são negócios, mas o coração fala mais alto.

Paulinho já montou mosaicos em alguns jogos do América-RN (Foto: Acervo pessoal)
Paulinho já montou mosaicos em alguns jogos do América-RN (Foto: Acervo pessoal)
O torcedor também foi contratado pra fazer mosaico do Bahia na final da Copa do Nordeste de 2015 (Foto: Acervo pessoal)
O torcedor também foi contratado pra fazer mosaico do Bahia na final da Copa do Nordeste de 2015 (Foto: Acervo pessoal)

Serviço:

Equipe Mosaico

> Este texto, publicado originalmente em 26/1/2019, foi atualizado em 21/5 com versão em vídeo da reportagem.

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