Deu a louca

Este cara trabalha todo dia com camisas de futebol. E só repete a cada 3 anos!

Jorginho O Lendário, colecionador com mais de 800 camisas, comprou 14 delas de pedestres na rua

O carioca Jorginho trabalha na Casa da Moeda do Brasil, no Rio (Acervo pessoal)
O carioca Jorginho trabalha na Casa da Moeda do Brasil, no Rio (Acervo pessoal)

Por Jorginho O Lendário

Coleção! Coleções! Muitos de nós temos. Elas podem começar tanto por escolha própria ou mesmo por um mero acaso. Muitas vezes, a sua gênese passa despercebida e, quando vemos, já temos uma verdadeira coletânea sobre algo que nos agrada muito. Tenho quatro coleções: tampinhas de garrafas (conhecidas no Rio de Janeiro como “chapinhas”), moedas, times de botão e, provavelmente, a mais especial dentre elas: camisas de futebol.

Esta última, aliás, transformou-se numa marca registrada minha, pois desde 1995 as uso com constância. Tudo começou numa aposta: meu pai duvidou que o Fluminense ganharia o Estadual daquele ano. Resultado: gol de barriga, título, camisa ganha e o que eu não poderia imaginar… O início da minha mais famosa coleção.

Até a produção deste texto tenho 805 camisas de clubes e seleções de futebol dos cinco continentes (embora sejam seis as confederações continentais), e isso sem contar as repetidas que vez por outra ganho e que acabam por serem utilizadas para malhar ou para jogar minhas peladas semanais.

Tenho por hábito usá-las todos os dias em meu ambiente de trabalho! É isso mesmo, diferentemente do padrão comum dos colecionadores em não usar ou ainda de usar de forma aleatória suas peças, vou trabalhar cada dia com uma das minhas camisas de futebol em ordem de aquisição.

“Vou trabalhar cada dia com uma das minhas camisas de futebol em ordem de aquisição”. (Jorginho O Lendário)

Como tenho um número considerável, demoro cerca de três anos para voltar a vestir quaisquer dos mantos que possuo. Ou seja, a camisa que usarei amanhã só voltará a ser utilizada em meados do 2º semestre de 2021!

Você pode estar se perguntando coisas do tipo “como ele faz para guardá-las?”, ou ainda “qual o método que ele utiliza para não se perder nessa ordem?”. Fácil resposta resumida em uma única palavra: organização!

Eu as mantenho em dois guardarroupas que ficam em dois quartos diferentes. São 10 camisas por cabide (sete já se quebraram e foram devidamente substituídos!). Tenho minhas camisas anotadas em um velho caderno de 1993, o qual fiz uso para a disciplina matemática na 8ª série (atual 9º ano). Aliás, esse mesmo caderno guarda minhas partidas de futebol de botão realizadas desde 2/1/1995.

“Tenho minhas camisas anotadas em um velho caderno de 1993, o qual fiz uso para a disciplina matemática na 8ª série”.

Nele, anoto em que dia comprei a camisa, de qual clube ou seleção se trata e, caso haja, qual o número às costas. Tudo isso também em ordem de aquisição, o que me permite usá-las sem criar dúvidas sobre quais as cinco camisas que devo separar no domingo para vesti-las durante a semana na empresa onde trabalho.

Por precaução, guardo ainda minha lista de camisas em um Excel no meu computador pessoal e em um outro na empresa. Ali não constam as datas de compra nem os número às costas, mas fiz questão de separá-las em 4 colunas: coleção inteira, camisas de clubes nacionais (em azul), de clubes estrangeiros (em amarelo) e as seleções (em laranja); sendo que a coluna que consta a coleção completa mistura as três cores.

Atualmente, Jorginho só repete as camisas a cada três anos (Foto: Acervo pessoal)
Atualmente, Jorginho só repete as camisas a cada três anos (Foto: Acervo pessoal)

“Você é louco!” ou “Você tem camisas normais?”, são, respectivamente, a exclamação e a interrogação que mais ouço. Mas colecionar camisas de futebol já me rendeu várias histórias para contar. Algumas delas ganhei de presente. Inclusive, há as oriundas de outros estados e até mesmo as de outros países, como Argentina, Paraguai, Peru, Chile, Uruguai, Inglaterra e Austrália.

A grande maioria comprei em sites, lojas especializadas ou em camelôs. Mas os mantos que mais me rendem o que contar foram os que troquei em estádios ou ainda os que comprei de pessoas que os estavam usando em plena rua!

“Os mantos que mais me rendem o que contar foram os que troquei em estádios ou ainda os que comprei de pessoas que os estavam usando em plena rua!”

Se vejo algum transeunte incauto com uma camisa que não tenho, vou atrás e faço proposta financeira pela peça. A princípio a pessoa não entende o porquê de eu querer comprar justamente a camisa que ela está utilizando, mas garanto que minhas abordagens me renderam frutos em 55% a 60% das tentativas.

Troquei sete camisas com estrangeiros, somando Olimpíadas Rio 2016, Copa do Mundo de 2014 e Libertadores de 2013. Além disso, comprei 14 camisas de pedestres desavisados que, em sua grande maioria, ficaram descamisados, mas que ganharam uma graninha e, assim, aumentaram minha coleção.

Camisas consegui na rua:

— Huachipato: Foi a primeira que troquei em estádios, e isso ocorreu por ideia do próprio torcedor chileno, antes de partida contra o Fluminense. A partir daí, passei a ir aos estádios vestido com duas ou, até mesmo, três camisas. Mas isso quando o adversário é estrangeiro, ou quando o rival é um clube de outro estado e eu não tenha a camisa em minha coleção.

— Junior de Barranquilla: Comprei a camisa colombiana de um vendedor de balas, em Madureira, bairro vizinho ao meu, Campinho. Ao final da negociação ele ainda me pediu “um por fora” para garantir a cervejinha. Ainda que um tanto contrariado, cedi.

— Italva: Estava indo assistir a uma partida da Copa das Confederações de 2013, quando vi um torcedor usando a camisa do time do interior do Rio de Janeiro, hoje licenciado. Para minha surpresa, após minha abordagem, o cara queria me dar a camisa gratuitamente, com o intuito de que eu divulgasse o clube. Como percebi que ele estava acompanhado da sua digníssima, lhe dei um dinheirinho para não ficar feio. Ao final, ele me falou que era o então vice-presidente do clube.

— Comunicaciones: Novamente estava eu em Madureira, quando vejo um cidadão sentado em um barzinho vestido com a camisa de uma equipe guatemalteca. Ao lhe abordar sobre o clube, o gringo ficou surpreso e feliz por eu ter reconhecido de qual time se tratava. Sim, conseguira ali mais uma aquisição de uma daquelas equipes as quais chamamos “alternativas”.

“Comprei 14 camisas de pedestres desavisados que, em sua grande maioria, ficaram descamisados”.

Jorginho usa camisas de futebol continuamente desde 2009 (Foto: Acervo pessoal)
Jorginho usa camisas de futebol continuamente desde 2009 (Foto: Acervo pessoal)

Todo dia é dia

O uso diário das minhas camisas começou em 2002, quando comecei a estudar Letras na UFRJ; fato este que me fez ser bem conhecido por lá naquela época, quando tinha 105 camisas. Quando comecei a dar aulas, em 2006, não as usava por precaução, passei as usar de maneira contínua em 2009, ainda quando era professor (por baixo do jaleco e com a orientação da diretora da escola de não usar as dos times grandes do Rio de Janeiro, fato este que me impedia, na verdade, de usar apenas a do Flu, já que as camisas dos três rivais não são usadas por mim, embora eu as tenha).

Finalmente, carreguei este costume para o meu emprego atual, na Casa da Moeda, onde trabalho desde 2011, usando uma camisa diferente todos os dias. Nunca tive qualquer problema oficial por me vestir dessa maneira. Pelo contrário, arranjei um bom número de amizades exatamente por este fato e por eu sempre contar a história da equipe, curiosidades, etc. Já recebi alguns questionamentos de pessoas próximas, mas a grande maioria diz curtir muito meu estilo e estas pessoas acabam, às vezes, enaltecendo minha personalidade.

Inclusive, alguns colegas de trabalho quando viajam para outros estados e, mesmo, outros países, me perguntam quais não tenho e tentam trazer alguma para mim, para exemplificar, tenho um amigo que me trouxe uma de um clube australiano e um outro amigo que já conseguiu 10 camisas para mim.

Amigos que ganhei

Colecionar camisas de futebol, além de ser um agradável hobby e de haver incrementado meu nível cultural, já me rendeu várias amizades, pois o meu pitoresco hábito faz com que muitas vezes pessoas, mesmo sem nunca terem falado comigo anteriormente, se aproximem e façam aquela pergunta: “Que time é esse?”. E como, modéstia à parte, possuo um conhecimento vastíssimo não só de futebol, mas de história, geografia e até mesmo de heráldica, acabo por mencionar pormenores dos clubes, títulos, cidade de origem, país e até o porquê de suas cores. E, assim sendo, aquele então desconhecido se torna um conhecido, um colega e, às vezes, até mesmo um novo amigo que o futebol uniu.

> Jorge Rodrigues Gomes Neto, de 39 anos, mais conhecido como Jorginho O Lendário, é técnico administrativo da Casa da Moeda do Brasil, no Rio de Janeiro. Formado em Letras Português/Espanhol pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele já foi tema de matéria do Verminosos por Futebol, por ter a curiosa mania de disputar um campeonato de futebol de botão contra ele mesmo, jogando com 782 times e seleções diferentes.

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