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Há 100 anos ocorria o 1º Clássico-Rei; Veja 18 curiosidades sobre o duelo Ceará x Fortaleza

Resgatamos a história do maior clássico do futebol cearense e um dos maiores do Nordeste

O Clássico-Rei já foi disputado quase 600 vezes em 100 anos de rivalidade (Foto: Reprodução)
O Clássico-Rei já foi disputado 566 vezes em 100 anos de rivalidade (Foto: Reprodução)

No dia 17 de dezembro de 1918, Ceará e Fortaleza disputavam o primeiro duelo do clássico que se tornou o maior da cidade e um dos maiores do Nordeste. Se o jogo inaugural passou quase despercebido, o primeiro de seu segundo século, talvez pelo Campeonato Cearense ou pela Copa do Nordeste, em 2019, terá ambos os clubes em situação privilegiada: estando juntos na elite do futebol brasileiro.

Para marcar os 100 anos do Clássico-Rei, o Verminosos por Futebol reúne abaixo 18 curiosidades sobre o duelo – que, claro, não era Clássico-Rei já desde o seu nascimento. Confira!

1) Primeiro duelo já valeu taça

O primeiro duelo entre Ceará (fundado em 2/6/1914) e Fortaleza (de 18/10/1918) valeu o título da Liga Metropolitana de Futebol (LMF) em 1918. O Ceará, que havia sido campeão em 1915, 1916 e 1917, sagrou-se tetra, ao vencer o Fortaleza por 2 a 0 em 17/12/1918. O segundo confronto, em 30/11/1919, também decidiu taça. Com um 2 a 1, o Ceará conquistou o penta – homologado como oficial pela Federação Cearense de Futebol (FCF) em 2008.

2) Um pé lá, outro cá

José Silveira (nascido em 29/9/1892), o introdutor do futebol em Fortaleza após estudos na Suíça, fez parte tanto do Stela (fundado em 30/5/1915), que originou o Fortaleza, quanto do Ceará, que nasceu como Rio Branco e mudou de nome no 1º aniversário, em 1915. Sinal de que a rivalidade nos primórdios do futebol cearense não se assemelhava a dos dias de hoje.

José Silveira (6º em pé da esq. para dir.) com o Stela, que originou o Fortaleza (Foto: Reprodução)
José Silveira (6º em pé da esq. para dir.) com o Stela, que originou o Fortaleza (Foto: Reprodução)

3) Um jogo por ano. E olhe lá!

A Associação dos Desportos do Ceará (ADC), atualmente denominada de Federação Cearense de Futebol, surgiu em 1920, passando a organizar o Campeonato Cearense a partir daquele ano. Depois de empate no clássico em 1 a 1, em 7/8/1921, o Fortaleza conquistou sua primeira vitória em 4/6/1922, no quarto jogo entre ambos: goleada de 6 a 3.

4) Nasce a rivalidade

O primeiro ato da rivalidade entre os clubes veio no duelo do returno do Campeonato Cearense de 1922, marcado para o dia 10/9. Empolgado com a vitória no primeiro jogo, o Tricolor agendou a comemoração do título no restaurante Rotisserie Sportman, na Praça do Ferreira. O Ceará venceu por 4 a 1, no quinto clássico, sagrou-se campeão e fez sua festa no mesmo local.

5) Onde nasceu o apelido

O duelo entre Ceará e Fortaleza era conhecido simplesmente como clássico, até que o jornal O Povo, num dos confrontos de 1962, utilizou a manchete “Choque-Rei”. O título acabou adaptado e o duelo passou a ser conhecido como Clássico-Rei.

6) Família de presidentes

Às vezes filhos decepcionam o pai ao torcer pelo time rival, mas o que aconteceu na família Frota foi sem igual. Ananias Frota de Vasconcelos, presidente do Ceará entre 1942 e 1943, teve um filho presidente do Fortaleza em 1967. Ananias tinha 46 anos ao assumir o Vovô. Quando José Girão Frota ocupou a presidência do Leão, aos 42 anos, seu pai estava com 71.

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Ananias Frota de Vasconcelos, o alvinegro, e José Girão Frota, o tricolor (Foto: Reprodução)
Ananias Frota de Vasconcelos, o alvinegro, e José Girão Frota, o tricolor (Foto: Reprodução)

7) O palco mais alternativo

O Clássico-Rei foi realizado quase em sua totalidade nos estádios Campo do Prado (utilizado de 1913 a 1941), Presidente Vargas (inaugurado em 1941) e Castelão (de 1973). Um dos palcos mais inusitados foi o estádio Manoel Sátiro, em Fortaleza, no amistoso que marcou sua inauguração em 21/4/1965: vitória alvinegra de 1 a 0, gol de Charuto, diante de 6 mil pessoas.

Para quem não reconheceu o nome, o estádio do bairro Vila Manoel Sátiro ganhou o nome do genro Felipe Santiago após sua morte, em 1987, e depois teve a arquibancada demolida com a venda do Floresta Esporte Clube, proprietário do campo, feita pela família Sátiro-Santiago a investidores em 2014. Com isso, o tradicional time amador virou profissional.

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Antigo estádio da Vila Manoel Sátiro teve Clássico-Rei na inauguração (Foto: Acervo José Renato Sátiro Santiago Junior)
Estádio do Floresta teve Clássico-Rei na inauguração (Foto: Acervo José Renato Sátiro Santiago Junior)

8) Vantagem alvinegra nas inaugurações

Assim como venceu o primeiro clássico no Manoel Sátiro e também no Campo do Prado (o primeiro clássico, o 2 a 0 em 17/12/1918), o Ceará levou a melhor no primeiro duelo no Presidente Vargas (2 a 1 no placar), em 22/3/1942, seis meses depois da inauguração do estádio. Já o primeiro clássico no Castelão, em 11/11/1973, que marcou a inauguração do estádio, ficou no 0 a 0.

Inauguração do Castelão, em 1973, teve um Clássico-Rei que ficou no 0 a 0 (Foto: Reprodução)
Inauguração do Castelão, em 1973, teve um Clássico-Rei que ficou no 0 a 0 (Foto: Reprodução)

9) Alambrado abaixo no clássico

Quando o Presidente Vargas ainda não tinha uma mureta de vidro separando a arquibancada do campo, os alambrados do estádio foram derrubados em três ocasiões, em 1971, 1973 e 2001 – todas as vezes pela torcida do Fortaleza. A primeira foi em 3/8/1971, em protesto pelo gol do Ceará no último minuto no empate em 2 a 2, que valeu o título estadual daquele ano.

10) Unidos venceremos

Ceará e Fortaleza são como água e óleo, mas já se uniram uma vez – entrando em campo juntos, inclusive. Um combinado dos clubes fez amistoso contra o Flamengo de Zico, então campeão mundial, em 2/9/1982, no Castelão. Oito jogadores de cada time formaram a equipe Ceará-Fortaleza, que vestiu verde e amarelo. Para surpresa geral, os cearenses venceram por 2 a 0.

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Os gols da vitória foram de Ademir Patrício (Ceará) e Adílton (Fortaleza) (Foto: Reprodução)
Os gols da vitória foram de Ademir Patrício (Ceará) e Adílton (Fortaleza) (Foto: Reprodução)

11) Um sol pra cada um

O Clássico-Rei já foi disputado pela manhã. Em 28/10/2001, o duelo do returno da Série B do Campeonato Brasileiro teve início às 10h, para garantir mais segurança ao público, já que o jogo seria realizado no Presidente Vargas, que substituía o Castelão em obras. Os times, sem os ídolos Sérgio Alves e Daniel Frasson, suspensos, protagonizaram um emocionante 3 a 3.

Para muitos, o 3 a 3 de manhã foi um dos maiores Clássicos-Rei da história (Foto: Reprodução Agência Diário)
Para muitos, o 3 a 3 de manhã foi um dos maiores Clássicos-Rei (Foto: Reprodução Agência Diário)

Ceará 3×3 Fortaleza em 2001:

12) Números, muitos números!

Até a vitória do Fortaleza sobre o Ceará por 2 a 0 em 10/9/2018, pela Copa Fares Lopes, foram disputados 566 jogos, com 192 vitórias do Ceará, 173 vitórias do Fortaleza e 201 empates (não se conhece o resultado de oito partidas, desconsideradas da estatística). Ao todo, foram 776 gols do Ceará e 740 gols do Fortaleza.

A maior goleada foi tricolor, um 8 a 0 do Fortaleza em 17/7/1927, pelo Campeonato Cearense. A maior goleada alvinegra foi um 7 a 0 em amistoso em 12/6/1955.

A maior sequência de invencibilidade em jogos oficiais foi do Fortaleza, de 17/7/1999 a 8/7/2001, quando venceu 12 jogos e empatou quatro. Já a maior invencibilidade, considerando quaisquer partidas, foi do Ceará, de 16/10/1949 a 18/4/1953, ao vencer 13 duelos e empatar quatro – dos 17, foram nove oficiais e oito amistosos.

Até hoje, o Clássico-Rei decidiu o Campeonato Cearense 32 vezes. A disputa está empatada em 16 a 16, até a final de 2018.

O maior público da história do clássico foi de 60.363 torcedores, em duelo em 6/10/1991 no Castelão, na decisão do 3º turno do Campeonato Cearense. O Fortaleza venceu por 1 a 0.

Veja o Clássico-Rei recordista de público:

13) Hinos partiram do mesmo autor

O autor do hino do Ceará, o cantor e compositor José Jatahy (1910-1983), um dos mais famosos artistas do estado na primeira metade do século, também compôs o primeiro hino do Fortaleza. Lançado em 1959, o hino acabou substituído pela atual canção, do poeta Jackson de Carvalho, em 1967. Nota: o Verminosos por Futebol não conseguiu apurar quando o hino do Ceará foi lançado.

Hino do Ceará:

Primeiro hino do Fortaleza:

14) Duelo de elite

Apesar de ser um dos clássicos com maior número de partidas realizadas no futebol nacional, foram poucos os jogos pela 1ª divisão do Campeonato Brasileiro. Foram apenas sete, com duas vitórias do Ceará, uma do Fortaleza e quatro empates, com cinco gols do Vovô e quatro do Leão. Depois de 26 anos do último duelo, em 1993, o Clássico-Rei voltará à elite em 2019.

15) Seleções de cada time

O jornal O Povo já elegeu o time dos sonhos de Ceará e Fortaleza, em cadernos que comemoraram seus 90 anos, em 2004 e 2008. Estes foram os mais votados:

Ceará – Harry Carey; William, Alexandre, Artur e Carneiro; Rubens Feijão, Edmar e Zé Eduardo; Carlito, Gildo e Da Costa. Votaram: Gomes Farias, Gilvan Dias, Sérgio Redes, Carlito, Evandro Quariguazi, Fausto Nilo, Maurício Gomes Pereira (Maurição), Antônio Góis, Luis Campos, Franzé Moraes e André Figueiredo.

Fortaleza – Lulinha; Louro, Pedro Basílio, Zé Paulo e Carneiro; Chinesinho, Lucinho e Amilton Melo; Mozart, Croinha e Júlio César. Votaram: Alan Neto, Vicente Alencar, Júlio Salles, Sérgio Redes, Zé Cândido, Airton Fontenele, Ribamar Bezerra, Lúcio Bomfim, Silvio Carlos e Mário Henrique.

16) Craques contemporâneos

Ceará e Fortaleza tiveram muitos ídolos – alguns raros casos em ambos os clubes. Os dois que são apontados como os maiores craques da história dos rivais foram contemporâneos, nos anos 60: Gildo (12/1/1940 – 9/3/2016) e Mozart (5/1/1939 – 7/9/2009), respectivamente. A dupla se enfrentou 13 vezes, entre 1962 e 1969. Foram seis vitórias alvinegras, duas tricolores e cinco empates, com sete gols de Gildo e um de Mozart – explique-se, este era mais armador do que goleador.

17) Ídolos no lado adversário

Alguns dos maiores ídolos da história dos rivais cearenses tiveram passagem pelo lado adversário.

Mitotônio, o maior craque do Ceará na primeira metade do século 20, profissionalizou-se no Fortaleza em 1939, antes de defender o Ceará de 1940 até 1951, ao morrer ao sofrer uma congestão estomacal aguda durante jogo contra o Gentilândia no PV.

Mozart, filho do presidente do Fortaleza, Coronel Mozart Gomes, e irmão do capitão Moésio Gomes, jogou três meses pelo Ceará, em 1967, causando uma indisposição na família. Depois, o próprio Moésio fez o mesmo, sendo o técnico do Ceará na conquista do tetra estadual em 1978, em duelo contra o Fortaleza.

Em caso mais recente, Clodoaldo, o maior ídolo do Fortaleza neste século, colocou sua relação com a torcida em jogo ao trocar o Pici por Porangabuçu, em 2006. Somente em 2017 o craque foi perdoado pela diretoria do Fortaleza, tendo a oportunidade de mais um ano de contrato com o time.

Gildo, o maior ídolo da história do Ceará, e Sérgio Alves, o maior ídolo do clube na história recente, nunca atuaram pelo Fortaleza.

Mitotonio-Estadio-de-Granja
Estádio de Granja-CE recebeu nome de Mitotônio, homenagem ao jogador (Foto: Jornal O Povo)

18) Rivalidade nas quadras

Além do futebol, Ceará e Fortaleza também tiveram força no futsal cearense na primeira década deste século, com clássicos disputados no ginásio Paulo Sarasate. O primeiro foi campeão cearense em 2003, 2004 e 2005, enquanto o segundo levou a melhor em 2008. Atualmente, os dois rivais não mantêm equipes de futsal.

> Faltou alguma curiosidade? Cite abaixo nos comentários.

Publicações consultadas:

– A História do Campeonato Cearense de Futebol – Nirez de Azevedo (Tipogresso, 2002);

– A Verdadeira História do Futebol Cearense 1903/1955 – Frederico Maia (1955);

– Futebol Cearense: Um Século de História 1902/2002 – Alberto Damasceno (2002);

– Futebol Cearense: A História – Alberto Damasceno (Epgraf Gráfica e Editora, 2011);

– Futebol Cearense: Presepadas no Mundo da Bola – Alberto Damasceno (2003);

– Futebol Cearense: Retalhos Históricos – Alfredo Sampaio (Imprece, 2007);

– Grandes Clássicos-Rei da História – Airton de Farias e Vagner de Farias (Edições Livro Técnico, 2006);

– Ceará: Uma História de Paixão e Glória – Airton de Farias (Edições Livro Técnico, 2005);

– Ceará Sporting Club: Uma História em Preto e Branco – Lúcio Chaves Holanda (Expressão Gráfica, 2004);

– Ceará: Alegria do Povo – Haroldo Moura (1996);

– Mozart: Uma trajetória inquieta no futebol – Saraiva Júnior (Expressão Gráfica, 2013);

– Nem tudo é futebol – Sérgio Rêdes (Expressão Gráfica, 1997);

– PV: Biografia de uma Paixão – Ciro Câmara, Cláudio Ribeiro, Rafael Luis Azevedo e Thiago Cafardo (Fundação Demócrito Rocha, 2011).

– Ceará: 100 Anos de Paixão – Cliff Villar, Juliana Matos Brito, Ciro Câmara e Rafael Luis Azevedo (Fundação Demócrito Rocha, 2014).

– Assim se Construiu o Campeão – Pedro Mapurunga Azevedo (Expressão Gráfica, 2014).


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