Viagem no tempo

Colecionador tem série completa de times de botão com rostos de jogadores dos anos 70

A Gulliver lançou em 1977 e 1978 duas séries de times de botão que viraram relíquias

O jornalista Ricardo Bucci, de São Paulo, tem 900 times de botão (Foto: Acervo pessoal)
O jornalista Ricardo Bucci, de São Paulo, tem 900 times de botão (Foto: Acervo pessoal)

Ricardo Bucci conheceu o futebol de botão em 1977, ao ver o irmão mais velho jogar. Seus primeiros times tinham uma marca da época: as peças carregavam os rostos dos jogadores. Quarenta anos depois, ele reuniu a coleção completa de duas das séries mais famosas já lançadas no Brasil, dos anos 70.

Em 1977 e 1978, a fabricante de brinquedos Gulliver comercializou times de botão de equipes de sete estados do país, com a identidade de seus atletas. Nascia a série “Grandes Times do Futebol Brasileiro”, que ficou conhecida entre os fãs como os “botões de carinhas”.

No primeiro ano, foram 19 clubes – os quatro grandes paulistas, mais Portuguesa e Ponte Preta, os quatro cariocas, os dois gaúchos, os dois mineiros, os dois baianos, Sport, Santa Cruz e Coritiba –, além da seleção brasileira. No segundo, foram somente os paulistas, acrescentando o Guarani.

“Esta coleção foi a mais marcante para mim e sempre será, pois foi a primeira que tive contato”, conta Bucci, hoje com 44 anos. Apaixonado por futebol de botão na infância, o jornalista voltou a jogar muitos anos depois, em 2010. Passados oito anos, ele completou a série das carinhas.

Site sobre o tema

Bucci acumulou ao longo do tempo um grande conhecimento sobre o tema. Muitas dessas histórias são resgatadas no site Botões para Sempre, de sua autoria. “A ideia é registrar todas as marcas de botões que existiram no Brasil”, explica o colecionador, que possui 900 times de botão, com 9 mil peças ao todo.

“Esta coleção foi a mais marcante para mim e sempre será, pois foi a primeira que tive contato”. (Ricardo Bucci)

No acervo, há raridades desde os anos 50, mas a série dos anos 70, com os rostos de seus primeiros ídolos, é especial. “Os jogadores desfilavam nos gramados numa época de futebol romântico. Muitos desses participaram das Copas de 1978 e 1982”, indica. Quem viveu sabe o valor.

Confira a entrevista abaixo.

Ricardo Bucci levou oito anos para reunir a coleção de 1977 e 1978 (Foto: Acervo pessoal)
Ricardo Bucci levou oito anos para reunir a coleção de 1977 e 1978 (Foto: Acervo pessoal)

“A alegria de reunir esta coleção foi imensa”

 

Verminosos por Futebol Quando você começou a reunir esta série de times de botão dos anos 70?
Ricardo Bucci – Inicialmente observava meu irmão que jogava na mesa ‘Estrelão’ em 1977. Foi no auge da decisão do Paulistão que envolveu a final entre Corinthians e Ponte Preta. Porém, eu tinha apenas quatro anos. Somente em 1979 comecei a praticar o esporte. Nesse período meu saudoso avô paterno comprava vários pacotinhos da Gulliver numa banca de jornal na Rua Batataes, em São Paulo. Assim fui tomando o gosto. Já perto da Copa de 1982 fiz o meu primeiro torneio sozinho. O Internacional com o rosto colorido dos jogadores sagrou-se campeão. Guardo com carinho esses botões avulsos de infância. Passou-se o tempo e tive um grande hiato. Só a partir de 2010 voltei a comprar novamente os times originais. E, em oito anos, consegui completar a coleção, ora comprando, ora trocando.

VerminososComo foi a alegria de reuni-la?
Bucci – A alegria foi imensa. Esta coleção foi a mais marcante para mim e sempre será, pois foi a primeira que tive contato, ou seja, minhas primeiras palhetadas foram nos botões de ‘carinhas’ da Gulliver da série Grandes Times do Futebol Brasileiro.

A coleção de 1977 e 1978 da Gulliver reuniu craques da época (Foto: Acervo pessoal)
A coleção de 1977 e 1978 da Gulliver reuniu craques da época (Foto: Acervo pessoal)

VerminososComo você conseguiu comprar os times da série?
Bucci – A maior parte veio de arremates em sites de compra na internet. Alguns outros times foram comprados com fornecedores que visitam bazares e instituições de caridade que recebem doações de brinquedos antigos. Devo muito ao senhor Moacir Peres, desembargador do Estado de São Paulo, que me ajudou a completar em uma troca o último time que me faltava: o Coritiba. Nunca apareceu sequer uma peça avulsa desse clube em oito anos de garimpo. E também ao colecionador José Oliveira, do Paraná, que me doou o jogador original Romeu do Corinthians, da segunda versão de 1978.

VerminososQuais são os times dessa série?
Bucci – A Gulliver produziu duas versões: uma em 1977 com 19 clubes brasileiros – os quatro grandes paulistas, mais a Portuguesa e a Ponte Preta, os quatro grandes cariocas, os dois grandes gaúchos, os dois grandes mineiros, os dois grandes baianos, Sport e Santa Cruz em Pernambuco, e o Coritiba –, mais a seleção brasileira de 1978, que foi fotografada durante as Eliminatórias de 1977. A segunda versão privilegiou somente times paulistas. Foi feita em 1978, juntamente com o Guarani, que não estava presente no catálogo.

Um pouco mais tarde, em 1980-81, a fábrica lançou uma coleção da Gulliver/Disney, com o rosto colorido dos personagens. A fábrica denominou o embate entre Time do Mickey x Time dos Metralhas. Ambos consegui ter originalmente em minha coleção, graças a uma doação do empresário Alexandre Badolato, o maior colecionador de carros Dodge no país.

VerminososTeve algum jogador que entrou em time errado, algum com nome errado?
Bucci – Os jogadores desfilavam nos gramados numa época do futebol romântico em fins dos anos 70. Muitos desses participaram da Copa de 1978 e 1982, como Waldir Peres, Leão, Nelinho, Júnior, Luís Pereira, Zico, Sócrates, Roberto Dinamite, Rivelino, Reinaldo, Paulo Isidoro, Toninho Cerezo, Serginho Chulapa, Eder. Infelizmente não tivemos a presença de Falcão, pois ele estava machucado num período em 1977. Mas tivemos erros, sim. O Adílio do Flamengo saiu escrito como ‘Edinho’ e o Nilton Batata, do Santos, como ‘Milton Batata’.

Ricardo Bucci (o menor) conheceu o futebol de botão em 1977 (Foto: Acervo pessoal)
Ricardo Bucci (o menor) conheceu o botão em 1977 (Foto: Acervo pessoal)

VerminososJá houve alguma outra série de times de botão de ‘carinhas’ tão marcante quanto essa?
Bucci – Sim. Nota-se, contudo, que a Gulliver fez os últimos botões com rostos de jogadores. A produção iniciou-se em 1977 e foi vendida até meados da Copa da Espanha, em 1982, pois tenho uma caixinha na qual o garoto escreveu o dia, mês e ano quando foi adquirida. A Estrela fez muito sucesso com os modelos ‘canoinhas’ e ‘panelinhas’. Iniciou-se em 1961 com um clássico entre Santos e Palmeiras, passando pela seleção tricampeã de 1970 e produziu rostos de jogadores até metade da década de 70. O diferencial da Gulliver foi ter produzido times gaúchos, mineiros e nordestinos, diferentemente da Estrela, que só teve acordo com os quatro maiores de SP e do RJ. Existiram botões que eram vendidos antigamente em banca de jornal, como a ‘Coleção Onze de Ouro’, da Editora Saravan, em parceria com a fábrica Jofer de Guarulhos, e outras séries desse mesmo fabricante como ‘Ídolos do Futebol’ e ‘Crak’s da Pelota’, da metade dos anos 60 e começo dos 70s.

“O diferencial da Gulliver foi ter produzido times gaúchos, mineiros e nordestinos, diferentemente da Estrela, que só teve acordo com os quatro maiores de SP e do RJ”.

Verminosos Esses botões da Gulliver eram feitos de quê? Como eram as artes dos jogadores?
Bucci – A Gulliver fez duas versões: um botão de plástico fino, tipo ‘casquinha de ovo’, que vinha para ser adesivado nas cartelas vendidas em saquinhos. O outro botão era mais resistente, de acrílico, um pouco maior, na qual o colecionador comprava o time já dentro de uma caixinha amarela, com uma janela transparente, com os dizeres “Grandes Times do Futebol Brasileiro”.

A arte dos jogadores tinha tamanho de 24mm e foi feita em parceria com a Revista Placar, que fotografava os times posados em campo. O preço não tinha um custo elevado em comparação a outros botões ditos ‘oficiais’, no estilo ‘tampa’ de relógio. Deveria valer na época cerca de R$ 20 na caixinha. Diferente de hoje que, lastimavelmente, existem muitos exploradores de peças antigas que abusam nos preços de forma perversa. No caso da Gulliver, lembro-me de saudosas lojas e magazines que vendiam os botões de ‘carinhas’, como Jumbo-Eletro, Mappin e Lojas Americanas, aliás, algumas etiquetas desses locais ainda estão estampadas em minhas caixas.

A coleção da Gulliver das carinhas é uma das mais raras de botonismo (Foto: Acervo pessoal)
A coleção da Gulliver das carinhas é uma das mais raras de botonismo (Foto: Acervo pessoal)

VerminososVocê tem quantos times de botão diferentes?
Bucci – Tenho aproximadamente 900 jogos originais completos, com cerca de 9 mil peças. Coleciono um pouco de tudo que foi feito antigamente. Quando nós colecionadores dizemos ‘originais’, é que foram feitos em saudosas fábricas. A maior parte de minhas peças data dos anos 70 e 80, contudo, os mais antigos são do começo dos anos 50.

“Lembro-me de saudosas lojas e magazines que vendiam os botões de ‘carinhas’, como Jumbo-Eletro, Mappin e Lojas Americanas”.

VerminososVocê costuma jogar com qual frequência?
Bucci – Sim, quase todos os dias. Faço campeonatos das séries A, B, C, e D, do Brasileiro, Taça Libertadores, Liga Europa, Champions League e um campeonato ‘máster’, somente com ‘carinhas’ de jogadores. A ideia é jogar também uma Copa do Mundo por ano, claro, se houver tempo.

Os melhores jogadores do Campeonato Brasileiro de 1978 (Foto: Acervo pessoal)
Os melhores jogadores do Campeonato Brasileiro de 1978 (Foto: Acervo pessoal)

VerminososComo é teu trabalho no site Botões para Sempre?
Bucci – Sou o criador e idealizador. Resolvi criá-lo para ser um veículo de informação da história do Futebol de Botão no Brasil. A ideia é registrar todas as possíveis marcas de botões que existiram no país. Já realizei entrevistas com ex-fabricantes como o senhor Adolpho Gonelli, filho do fundador dos clássicos botões Bolagol. Entrevisto colecionadores e personalidades como o cantor e compositor cearense, Raimundo Fagner, que, pela primeira vez, nos contou em 2018 sobre seu passado com o futebol de botão. O blog não deixa de registrar também fatos e lembranças do Futebol Retrô. E sempre quando adquiro um time de botão conto a história do clube, seus ídolos, a evolução dos seus escudos, enfim, futebol antigo e botões se casam perfeitamente. Nascido no final de 2010, falta pouco para o blog ultrapassar a marca de 2 milhões de acessos.

VerminososTem muito colecionador de times de botão Brasil afora?
Bucci – Infelizmente não há tantos colecionadores de botões no país, comparado com camisas de clubes. Na minha visão, o motivo principal é o preço cada vez mais abusivo e injusto de tais peças antigas. Nesse ramo também verificamos a segmentação. Tem colecionador que só compra botões de ‘carinhas’, outros somente de ‘vidrilha’, que eram similares aos antigos botões de ‘tampas’, outros somente colecionam galalite, no caso do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, e casca de coco, ou botões de osso no Nordeste.

Fotos de alguns times:

  • Essa era a embalagem que acompanhava os times de botão (Foto: Acervo pessoal)
  • Essa era a embalagem que acompanhava os times de botão (Foto: Acervo pessoal)
  • Essa era a embalagem que acompanhava os times de botão (Foto: Acervo pessoal)

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