Viagem no tempo

Finta: A história da marca esportiva brasileira que brilhou em campo nos anos 90

Em entrevista, diretor que acompanhou a Finta desde o início resgata a trajetória da marca

A Finta esteve em títulos nacionais de Vasco, Cruzeiro e Corinthians (Foto: Reprodução)
A Finta esteve em títulos nacionais de Vasco, Cruzeiro e Corinthians (Foto: Reprodução)

Vasco de 1989, Corinthians de 1990 e Botafogo de 1995. Em comum a esses três times campeões do Brasileirão, a marquinha no peito direito da camisa.

Foi um início arrasador para a Finta, fundada em 1986. Em uma década nos gramados, a fornecedora de material esportivo brasileira conquistara grandes clubes parceiros, ídolos como garotos propaganda e muito torcedores clientes. Ao sabor de muitos títulos país afora.

Toda essa história foi acompanhada pelo administrador e empresário Jorge Fusco Rodrigues, funcionário anterior a existência da própria marca. Desde quando ainda se chamava Premiere, focava no ramo do esporte amador e vendia uniformes para clubes de futebol pequenos.

“Desconheço alguma marca nacional com tantos títulos importantes”, gaba-se Jorge, de 61 anos, diretor comercial e de desenvolvimento desde o surgimento da Finta. Foram cerca de 60 títulos estaduais, regionais, nacionais e internacionais, sem contar sucessos em outras modalidades esportivas.

Foco no amador

Atualmente, a Finta está distante dos grandes palcos onde brilhou nos anos 90. Depois de mudar de mãos duas vezes, a empresa iniciada em São Paulo agora tem sua sede em Belo Horizonte. Não patrocina mais clubes, e nem tem perspectiva de que volte ao mercado do futebol profissional.

“A empresa licencia fábricas para a confecção de bolas, luvas, chuteiras, uniformes, produtos com a marca da Finta, voltados para o esporte amador. A empresa sobrevive em função da marca, que é conhecida”, explica Jorge. São gols, dribles e – claro – fintas que não ganham manchetes, mas que sustentam o negócio até hoje.

Em entrevista abaixo, Jorge Fusco Rodrigues resgata ao Verminosos por Futebol a história da Finta.

Jorge Fusco Rodrigues, que comanda a Finta desde o início, resgata os tempos áureos (Foto: Reprodução)
Jorge Fusco Rodrigues (centro) comanda a Finta desde o início, nos anos 80 (Foto: Reprodução)

“Pouquíssimas marcas brasileiras tiveram esse resultado em campo”

 

Verminosos por FutebolQuando a Finta começou?
Jorge Fusco Rodrigues – A Finta nasceu em 1986, mas já existia antes como marca Premiere. Como tivemos um problema de registro de marca, optamos por mudar para Finta. A Premiere era de uma família tradicional de São Paulo, a Consani, com fábrica já desde os anos 50. Quando a Adidas chegou ao Brasil, passamos a fazer uniformes para muitos times. De 1976 a 1986, éramos licenciados da Adidas, fabricávamos os uniformes que ela fazia para alguns clubes. O foco da Premiere era fornecer uniformes no ramo esportivo amador, ou para clubes que compravam o material, como o Juventus. Nos anos 80, houve uma forte crise financeira no Brasil, parecida com a que vivemos hoje, então a Adidas deixou de patrocinar clubes. A Topper, que era brasileira, também já não tinha mais condições. Como já tínhamos o know-how, passamos a patrocinar. A Penalty, também brasileira, começou na mesma época.

VerminososQuais foram as primeiras experiências como Finta?
Jorge – Começamos com a Portuguesa de Desportos. Depois Ponte Preta, alguns clubes do interior de São Paulo, como a Ferroviária. Quando as grandes marcas deixaram os principais clubes, ocupamos esse espaço, primeiro com o Vasco em 1989, que acabou sendo campeão brasileiro. Em seguida, a Topper saiu do Corinthians, então acertamos com o presidente Vicente Matheus, e o time foi campeão brasileiro em 1990. Em 1991, começamos com o Cruzeiro, e esse também foi um clube que conquistou muitos títulos, nos garantiu bom retorno.

> Vestindo a Finta durante seis anos, o Cruzeiro foi campeão da Supercopa Libertadores em 1991 e 1992, da Copa do Brasil em 1993 e 1996 e do Mineiro em 1992, 1994 e 1996.

VerminososComo foi a expansão?
Jorge – Com esses títulos nacionais, a marca começou a ser procurada por clubes do Brasil inteiro, e na medida das possibilidades passamos a atender. Santa Cruz, Sport, Náutico, Paysandu, Remo, Ceará – que por sinal patrocinamos no ano do centenário [em 2004] –, Guarani, Juventus, Guaratinguetá, Araxá, Vila Nova, Goiás, Juventude, Moto Clube, CRB, São Raimundo, muitos times. O Novo Horizontino foi muito importante para a gente também, pois foi um dos primeiros que subiram para a elite do Paulista usando a nossa marca. Sem contar os clubes de outros esportes que patrocinamos, como de vôlei e basquete. Foi uma marca que pegou bem, inclusive porque é uma palavra que não se refere somente a futebol.

VerminososQual foi o maior número de clubes que vocês vestiram ao mesmo tempo?
Jorge – É difícil dizer. Juntos, nos anos 90, dentre clubes tradicionais vestimos Portuguesa, Ponte Preta, Vasco, Corinthians, Cruzeiro, Guarani, Santa Cruz, Sport, Paysandu, Remo, Juventude, Goiás e Vila Nova. Eram clubes que davam uma grande representatividade para a Finta.

O meia Neto, do Corinthians, foi um dos ídolos que vestiram a marca da Finta (Foto: Reprodução)
O meia Neto, do Corinthians, foi um dos ídolos que vestiram a marca da Finta (Foto: Reprodução)

VerminososJá houve alguma fornecedora brasileira com tantos títulos nacionais ou estaduais?
Jorge – Marca brasileira, não. A Penalty patrocinou muitos clubes, e esteve em muitas conquistas. Mas desconheço alguma marca nacional com tantos títulos importantes. Vasco campeão brasileiro em 1989, Corinthians campeão brasileiro em 1990, Cruzeiro campeão da Copa do Brasil de 1993, Botafogo campeão brasileiro em 1995. Isso sem contar os títulos estaduais, regionais e inclusive internacionais. O Juventude foi campeão da 2ª divisão usando Finta [em 1994], o América-MG também [em 1997]. O maior feito da história do Paysandu, um clube de massa no Norte, a vitória sobre o Boca Juniors na La Bombonera pela Libertadores, foi vestindo a Finta [em 2003]. Pouquíssimas marcas brasileiras tiveram esse resultado em campo.

> A Finta contabiliza presença em três títulos brasileiros, quatro da 2ª divisão nacional, dois da 3ª divisão, dois da Copa do Brasil, 43 estaduais, dois regionais, duas Supercopa Libertadores e mais os torneios Tereza Herrera e Ramon de Carranza.

VerminososA Finta sempre foi uma empresa com atuação nacional, mas também teve incursões pelo exterior. Como foram as experiências?
Jorge – A primeira vez que a seleção de Trinidad e Tobago chegou a uma Copa do Mundo foi vestindo a Finta nas Eliminatórias [de 2006]. Na Costa Rica, Alajuelense e Santos disputaram uma final usando Finta. Já vestimos todos os times do Haiti num campeonato, além de alguns do Japão. Tivemos algumas participações importantes no exterior, na medida do que era possível a uma empresa nacional.

> Na Copa do Mundo de 2006, a seleção de Trinidad e Tobago acabou vestindo Adidas. Poderia ter sido a primeira marca brasileira no torneio desde 1990, quando a Topper esteve com o Brasil.

VerminososComo era seu trabalho nos tempos áureos da Finta?
Jorge – Meu trabalho era desenvolver produtos. Entrava em vestiários e conhecia as equipes, para sentir o desgaste do material, para não deixar faltar nada. A convivência com os jogadores, os técnicos, os dirigentes, acaba sendo natural. Muitos jogadores usaram luvas nossas, chuteiras nossas. Por ser uma empresa nacional, nunca teve uma abundância para equipes de desenvolvimento. Mas com a proximidade com as equipes, aos poucos a gente conquistava alguns jogadores sem pagar. Fiz muitas amizades, inclusive com jogadores tidos como problemáticos, mas que no dia a dia eram pessoas boas. Essa amizade era muito importante, para que nenhum jogador reclamasse de uniformes. Felizmente a Finta nunca teve problemas, nunca um jogador falou mal de nossos produtos.

“Desconheço alguma marca nacional com tantos títulos importantes”. (Jorge Fusco Rodrigues, diretor comercial e de desenvolvimento da Finta)

VerminososComo eram os acordos na época? A Finta pagava valores por contrato ou comissão de vendas?
Jorge – No início do ano a gente sabia a quantidade de jogos que um time profissional teria, nos anos 90 foram 50, daí chegou a 60, 77. Com base nisso, sabe-se uma quantidade de material que o clube vai usar, mais o material de treino, de viagem. Levando-se em consideração que clubes grandes têm mais jogadores e uma comissão técnica maior, por exemplo o Corinthians exigia mais material que a Portuguesa. Então a empresa atendia o clube em doação desses materiais, e na venda agregava uma comissão de 5% ao clube. Além disso, os acordos envolviam doação de material para o departamento amador e outros esportes. Não existia pagamento pelo contrato. Existia uma cláusula de que, se o time fosse campeão, seria pago um valor X de prêmio. O pagamento por acordos só começou lá por 1995, com a assinatura do contrato.

Com o Botafogo de Túlio a Finta esteve em seu 3º título brasileiro (Foto: Reprodução)
Com o Botafogo de Túlio a Finta esteve em seu 3º título brasileiro (Foto: Reprodução)

VerminososQuando o mercado começou a ficar difícil para a Finta?
Jorge – As empresas brasileiras de material esportivo nunca tiveram um auxílio das entidades financeiras. Sempre viveram das suas próprias pernas. As empresas estrangeiras, como Adidas, Nike e Puma, que são forte lá fora, pegam um determinado valor por investimento, por exemplo com 5% de juros, enquanto aqui conseguimos com 8%, 10%, então não tem como crescer e competir com as indústrias estrangeiras. Para contratar um clube como o Flamengo, é importante ter um respaldo de entidades financeiras. Além disso, as empresas estrangeiras têm mais condições de investir em desenvolvimento de produtos. Hoje, as empresas de confecção nacionais estão quebradas, capitais produtivas como Franca, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, o parque fabril delas virou sucata.

“Fiz muitas amizades, inclusive com jogadores tidos como problemáticos, mas que no dia a dia eram pessoas boas. Essa amizade era muito importante, para que nenhum jogador reclamasse de uniformes. Felizmente a Finta nunca teve problemas”.

VerminososHoje, qual é o posicionamento da Finta no mercado?
Jorge – A Finta não tem mais fábrica. Tinha até os anos 90, no plano econômico de FHC (Fernando Henrique Cardoso), quando muitas fábricas foram fechadas. Hoje, a empresa licencia fábricas para a confecção terceirizada de bolas, luvas, chuteiras, uniformes, produtos com a marca da Finta, voltados para o esporte amador. É um modelo que todas as marcas internacionais usam. A empresa pertence agora a um grupo de Belo Horizonte, a Carvalhais. Foram duas mudanças de proprietários desde a fundação. A Finta não patrocina mais nenhum clube, e sobrevive em função da marca, que é conhecida.

VerminososVocê acha que fornecedoras nacionais terão condições de patrocinar grandes clubes?
Jorge – É difícil. Ainda mais agora, com essa crise financeira em decorrência da pandemia, vai haver bastante dificuldade para empresas brasileiras patrocinarem clubes.

> Jorge Fusco Rodrigues, de 61 anos, administrador e empresário, é diretor comercial e de desenvolvimento da Finta, cargos que ocupa desde a fundação da empresa, em 1986. Paulistano, nascido no Tatuapé e torcedor do Corinthians, hoje mora em Araxá (MG).

Em início de carreira, Ronaldo vestiu a camisa feita pela Finta para o Cruzeiro (Foto: Reprodução)
Em início de carreira, Ronaldo vestiu a camisa feita pela Finta para o Cruzeiro (Foto: Reprodução)

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