Viagem no tempo

Dellerba: A história da marca que fez as camisas mais loucas do futebol brasileiro

Camisas fabricadas pela empresa paulista no início dos anos 90 valem uma nota em sites de vendas

As camisas da Dellerba tinham em comum traços extravagantes (Foto: Mercado Livre)
As camisas da Dellerba tinham em comum traços extravagantes (Foto: Mercado Livre)

O início dos anos 90 foi a época mais pirada para o design no futebol. A adoção da técnica da sublimação – a aplicação de tinta em tecido através de calor – permitiu uma revolução na confecção de uniformes. Blusas ganharam estampas e grafismos que inovavam na moda boleira. Nesse quesito, nenhuma marca do Brasil ousou tanto nas extravagâncias quanto a Dellerba.

Essa é a história de apogeu e queda de uma marca paulistana que até hoje, três décadas depois, segue como sinônimo de camisas de futebol clássicas entre colecionadores. Uma trajetória que orgulha o empresário Ricardo Dellerba, que assim imortalizou o sobrenome da família de imigrantes italianos.

“Aqueles desenhos foram inconsequências da juventude”, resgatou Ricardo, em entrevista a Vice Brasil. A busca pelo risco no design fez com que camisas de clubes como Bragantino, Portuguesa, Guarani, União São João, Santos, América-SP, Botafogo-SP, Paraná e Vitória se tornassem célebres.

Tradição familiar

Antes de falar das camisas de Ricardo, é preciso voltar no tempo. O avô, Vito, era alfaiate. Inspirado nele, nos anos 50, seu filho Sérgio abriu uma loja de esportes em São Paulo, a Casa Dellerba de Esportes, na Lapa. A empresa não só vendia, como fabricava camisas, calções e meiões.

Alguns desses uniformes acabaram usados por equipes profissionais. A lenda familiar conta que a fábrica da Dellerba produzia os calções que a Athleta forneceu para a seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1954 a 1974. Outro causo é que a Dellerba fabricou as camisas que a Topper produziu para o Brasil na Copas de 1982, 1986 e 1990.

Antônio Bulgarelli, neto do fundador da Athleta, confirmou a Vice Brasil que a Dellerba fazia os calções da marca, mas não soube se eles foram usados em Copas. Já a Topper, que hoje não pertence mais a Alpargatas, respondeu que não sabe informar se suas camisas da Seleção foram feitas pela Dellerba.

Fato é que algumas blusas da Topper que o Corinthians vestiu, nos anos 80, carregavam etiquetas da Dellerba. “O lance dessas marcas era vender calçados esportivos. A venda de camisas não era o foco delas”, relembra Ricardo, que na época já trabalhava ao lado do pai Sérgio.

Estava na hora de a Dellerba ocupar um terreno inexplorado por marcas brasileiras e estrangeiras.

Camisa do Corinthians de 1985/86 foi fabricada pela Dellerba com a marca Topper (Foto: Reprodução)
Camisa do Corinthians de 1985/86 foi fabricada pela Dellerba para a Topper (Foto: Reprodução)

Réplicas de times europeus

O ensaio para o que a Dellerba viraria veio no fim dos anos 80. Na época era raro encontrar à venda no Brasil camisas de times europeus, que já podiam ser acompanhados por fãs brasileiros na TV. A ideia de Ricardo foi reproduzir algumas daquelas camisas, com a marquinha da família no peito.

A estreia da logo veio em blusas com o escudo e cores de times italianos como Napoli, Milan, Roma, Torino… “Naquela época não existia o conceito de pirataria”, minimiza Ricardo. Foi um sucesso de vendas no Brasil, de forma que muita gente até hoje acredita que a marca realmente vestiu as equipes.

“Naquela época não existia o conceito de pirataria”. (Ricardo Dellerba)

Camisas de times europeus da Dellerba fizeram sucesso no fim dos anos 80 (Foto: Mercado Livre)
Camisas de times europeus da Dellerba fizeram sucesso no fim dos anos 80 (Foto: Mercado Livre)
Essa era uma forma de ter acesso a camisas de times italianos (Foto: Verminosos por Futebol)
Essa era uma forma de ter acesso a camisas de times italianos (Foto: Verminosos por Futebol)

Fama com ajudinha do Bragantino

Já de posse de maquinário para produção de camisas em poliamida, material esportivo mais apropriado que o algodão, e sob a técnica da aplicação de cores em sublimação, a Dellerba chegou ao seu primeiro clube em 1988: o Central, time de empresários de Cotia (SP) que teve vida curta. Depois veio o América-RJ.

A marca ganhou a boca do povo em 1990, junto com seu primeiro título: o Paulistão de 1990, com o Bragantino. A camisa já tinha um design interessante, que imitava o uniforme que a Umbro fazia para a seleção da Inglaterra.

Um ano depois, o Braga chegava à final do Brasileirão de 1991 com uma das camisas mais estilosas da história do futebol brasileiro. De tão única, ganhou até nome: a Galo Carijó, porque os grafismos lembravam as plumas da ave.

A inspiração foi o desenho de algumas camisas europeias, como uma de treino da Escócia e outra de jogo do Ajax. “Tudo é uma combinação de fatores. Se o Bragantino não tivesse um time bom, talvez ninguém desse bola para a camisa deles”, chuta Ricardo.

“Se o Bragantino não tivesse um time bom, talvez ninguém desse bola para a camisa deles”.

O time de 1991 formou Mauro Silva, volante do Tetra três anos depois, e também abriu as portas do técnico Carlos Alberto Parreira para aquela seleção. Mais do que isso, equipes Brasil afora passaram a lançar camisas com design que lembrava a carijó do Braga.

Os primeiros anos daquela década, para marcas nacionais como Carioca, que focava no mercado do Rio de Janeiro; CCS, que mandava no Nordeste; Finta e Penalty, de abrangência mais nacional; além de Kyalami, Rhumell e várias outras, foram de muitas estampas e grafismos. À la Dellerba.

Camisa do Bragantino de 1991 foi uma das mais estilosas da história do Brasil (Foto: Reprodução)
Camisa do Bragantino de 1991 foi uma das mais estilosas da história do Brasil (Foto: Reprodução)
Concorrência levou a decadência

Catapultado pelas vendas de camisas de clubes brasileiros que vestiam Dellerba, e também pela produção de réplicas que seguia a todo vapor com mais times europeus, a empresa chegou a comercializar 70 mil blusas de futebol por mês. Muita coisa para uma empresa fortemente local.

Seu último brilho nos gramados foi o vice-campeonato da Portuguesa no Brasileirão de 1996. A partir do ano seguinte, o mercado esportivo brasileiro iniciou um processo de profissionalização. A gigante Nike passou a vestir a Seleção – o grande símbolo disso.

Dali em diante, para assinar com clubes, somente ceder uniformes para treinos e jogos, e repassar uma pequena porcentagem pelas vendas, não era mais suficiente. Era preciso pagar para fisgar o peixe.

De quebra, numa mesma época, a empresa paulistana enfrentou dívidas por troca de maquinários, crises econômicas globais e uma disputa desleal com produtos chineses com preço de custo bem mais barato.

O Guarani fez sucesso em campo no tempo dessa camisa da Dellerba (Foto: Mercado Livre)
O Guarani fez sucesso em campo no tempo dessa camisa da Dellerba (Foto: Mercado Livre)
Falência da Dellerba

Em 2010, a Dellerba fechou as portas e entrou em recuperação judicial. Hoje, Ricardo tem duas lojas, a Sport Lock, na Vila Leopoldina, em São Paulo, especializada em personalização de roupas esportivas, e uma de artigos de praia, a Doox, em Ilha Bela (SP).

Uma década depois da falência, camisas desgastadas da Dellerba com quase 30 anos são vendidas na internet por preços superiores a blusas novas que os mesmos times comercializam hoje em dia. Em sites como Mercado Livre, é fácil achar modelos acima de R$ 300.

Imagine o caixa que a família Dellerba faria com um ano de estoque acumulado daquela época.

E o que dizer da beleza dessa camisa da Portuguesa do tempo da Dellerba (Foto: Mercado Livre)
E o que dizer da beleza dessa camisa da Portuguesa do tempo da Dellerba (Foto: Mercado Livre)

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