Carrinho de compras

Saiba como cuidar de suas camisas de futebol

O designer de moda esportiva Antônio Bordallo lista cuidados para ter com coleção

Bordallo
Antônio Bordallo foi contratado para desenhar a camisa do Tibet (Foto: Acervo pessoal)

Por Antônio Bordallo

Pode até não ser frequente reconhecermos na rua colecionadores de camisas de futebol assim como muitos de vocês que estão lendo, mas é bem fácil reconhecer os que usam tais peças e não são: é só ver uma camisa bem desbotada, com detalhes desgastados.

Isso acontece porque eles não encaram as peças como a gente, sendo um item “histórico”, que não só merece ser preservado, mas que, com o tempo pode ser até bem valorizado e disputado entre as próximas gerações de colecionadores.

Por causa disso, é necessário sabermos algumas coisas quanto aos cuidados de conservação das camisas e resolução de alguns eventuais problemas. Pra começar, vale lembrar que todo colecionador sério faz questão de lavar suas próprias camisas. Se deixar na mão da mãe, esposa ou empregada, saiba que essa sua preguiça pode lhe custar sua peça de estimação.

Descole uma escovinha só pra você esfregar as camisas. É bom que seja de uma cerda firme, mas não grossa e rígida como as de esfregar jeans. Algo que você possa usar a força sabendo que não vai fazer um buraco no tecido. Quanto ao sabão, praticamente qualquer um que limpe mesmo tá valendo.

escovinha

Mais importante que qualquer dica de lavagem aqui é você dar uma olhada na etiqueta da sua camisa, com a composição do tecido e os cuidados de lavagem. De umas décadas pra cá houve uma mudança geral dos materiais, então acho legal separarmos as coisas desde já. E, pra quem não entende bem, vou comentar melhor sobre cada um.

Camisas de algodão: em geral é a composição das peças feitas até os anos 80, modelos retrô e de passeio. Podem ser mais pesadas, e com o suor ficam ainda mais, mas dão muito mais conforto que qualquer outro material.

Camisas de materiais sintéticos: originárias do petróleo, em geral se apresentam na forma de poliéster. E só a forma da estrutura da trama e do fio que pode determinar se este é leve, confortável, fresco, etc. Muitos erros têm sido cometidos ultimamente por algumas empresas, justamente por não conhecerem tanto da estrutura do tecido. Daí, o que era pra eliminar o suor acaba retendo-o dentro da camisa, e faz com que o usuário se sinta como embalado em papel celofane.

A partir de agora, nesse texto, vou convencionar que o texto escrito em azul é referente a cuidados de peças de algodão, em vermelho para as de materiais sintéticos e verde quando for pra ambas.

Antes de começar com os cuidados de lavagem, vou abordar a parte dos “problemas” que geralmente acontecem com essas peças e as possíveis técnicas para solucionar ou minimamente diminuir o problema.

Barcelona
Fios puxados:

Se você comprou alguma camisa nos anos 90, sabe bem o que estou falando. É a maior e mais fácil praga que pode acontecer com uma camisa, até porque tem um alto poder de proliferação. Talvez seja por causa dele que nos leilões mais caros de camisas, como o da Christie’s, só se pode tocar nas pecas com luvas. Nos anos 2000, até que esse problema minimizou, mas não significa que estamos livres dele.

A razão pela qual acontece é porque o fio de poliéster (ou qualquer outro material sintético) é bem mais fino que o de algodão (das camisas até os anos 80, que não têm esse problema) e o modo em que é tramada propicia isso também. Eu posso até explicitar mais algumas razões disso acontecer, mas vocês não estão aqui pra entender o problema, mas sim conhecer a solução.

A única forma de não haver chance disso ocorrer é você cuidar das suas unhas pra não ficar nenhuma parte pontiaguda, e tampouco encostar em partes assim de modo descuidado. Se já aconteceu, e o que resta é resolver, se você for paciente e ninja, pode tentar estudar a estrutura do fio e puxar o fio certo pra o lugar, mas você vai precisar de sorte também pra pegar o fio certo. Dependendo do caso, tente “empurrar o fiapo dos fios pra dentro da trama com uma agulha, em alguns casos dá. Se não deu jeito, uma última alternativa que eu uso, com muito cuidado e às vezes dá certo, é utilizar algum “papa-bolinha” (agora qualquer camelô vende) e passar em cima sem pressionar muito, que ele “come” o tal nódulo. Se pressionar com muita força ele pode comer mais que só o nódulo.

Outro aparato interessante, pra quem tem, é o Philishave. Eu usei aqui e, com precisão cirúrgica, pode resolver. De repente até mesmo um Prestobarba, se tu tiver mão de cirurgião, resolva. Mas vou logo dizendo que não me responsabilizo por qualquer dano. É só um toque que tô dando do que já fiz nas minhas camisas.

Lembrei de outro bem tosco, mas até que numa emergência resolve: os malditos fios puxados em geral são fios brancos que, em contraste com o tecido de outra cor, fica algo bem feinho. Já houve vez que eu passei uma caneta esferografica por cima, ou uma hidrocor (de cores similares) e até que funcionou até a próxima lavagem.

dsc06783

Manchas: em qualquer caso, o uso de água em abundância com um pouco de sabão na hora e uma certa esfregação não muito forte até que ajudam. Se deixar pra depois, pode dar xabu, porque a mancha pode secar e se incorporar à fibra, aí então pode encarar como um novo tingimento. Tendo sorte, adicionando ao grupo já citado, uma quantidade de sabão que o deixe meio pastoso e utilizando água um pouco quente, ajuda a desprender sujeira.

Mancha de gordura: é um dos grandes fantasmas que rondam as camisas, graças à presença desse item em nossa sociedade “gordurosa”, e também por acidentes quaisquer com itens assim. A grande salvação pra isso é aplicar e manter talco em abundância em cima da peça e deixar. Deixe agir de uma noite pra outra, e reza. Em geral funciona, porque o talco chupa o óleo.

Depois vai ter que bater um pouquinho a roupa pra tirar todos as partículas de talco, mas pelo menos tá salva.

O que esqueci de dizer é que você tem que aplicar talco sobre a peça no ato, se deixar pra depois… Ah, por causa disso, reze muito pra que onde você esteja, tenha talco por perto. Ter sempre talco em casa é a dica que eu dou. Se a gordura for um pouquinho mais punk, como graxa muita agua quente, sabão, esfregação e reza. Às vezes minimiza, se não resolve.

Ferrugem: se por qualquer situação apareceu alguma mancha de ferrugem (em geral acontece por causa do ilhós de metal em algumas camisas retrôs – ilhós é aquele buraco de metal onde passa algum cordão, como nos tênis), jogue um pouquinho do sumo de limão na peça enquanto molhada e espere algumas horas. Aí depois enxágua. Aproveita e lava a peça logo.

Umidade: seja chuva ou suor, se você guardar no armário sem deixar secar antes, pode transformar a peça num criador de fungos, e esses fungos às vezes são manchas que não saem nem com reza braba. Às vezes até deixam uma marquinha branca bem feiosa que é o “sal” do seu suor. Lavando, em muitos dos casos, resolve.

Agora, vamos aos cuidados na lavagem:

Lavar na máquina ou à mão? Apesar de prático, lavar à máquina te deixa completamente alheio ao processo, e se alguma zebra ocorrer, você só vai descobrir depois de finalizado todo o processo. Por isso que minhas dicas vão ser mais referentes à lavagem manual. Lavar à mão, apesar de mais trabalhoso, pode ser a forma mais segura de garantir que a peça não vá se transformar em outra depois da lavagem. Ou você acha que sua máquina de lavar sabe que o que tá sendo lavado é uma peça raríssima da sua coleção?

Deixar de molho: Cuidado com as peças que você deixa de molho. Algumas peças não valem a pena deixar de molho não. Peças de algodão em geral vão sempre tender a deixar parte de seu tingimento nela. Sem contar que uma cor pode migrar pra outra.

Um grande problema que eu descobri da pior forma foi deixar de molho peças que contêm um tipo de transfer bastante utilizado em jaquetas retrôs da adidas. É um material felpudo, mas não chega a ser flocado (aquele com “cabelinhos”). Esse material, quando em contato muito tempo com água, se torna uma pasta que é facilmente removida e pode se fixar em outra parte da peça.

dsc06786
A solução para limpar aplicações assim descobri que é esfregar usando a escovinha com água e sabão e, se for deixar de molho, colocar a área da aplicação fora do balde.

Cuidado com o sal! O sal pode ser um aliado quando você deixa uma peça de algodão de molho, pra evitar que as cores desbotem e manchem a cor mais fraca, mas por outro lado ela pode ser um grande inimigo disfarçado. Descobri da pior forma que esta substância é o corrosivo perfeito das aplicações em transfer emborrachado, que são tão presentes nas camisas de hoje. O resultado? As imagens fortes abaixo falarão por mim:

Alguém aí compra uma camisa dessas?

dsc05280
Água sanitária?

Se sua camisa for toda branca como a do Santos, e o escudo bordado for de um material sintético até rola, senão… vai andar desbotadinho na rua.

Eu desaconselho, até porque não sei (e nem quero saber, depois dessa catástrofe acima!) a reação do hipoclorito de sódio em aplicações de transfer.

Esfregação:

Esfregar não tem muito mistério, mas como já dito, é bom evitar o uso da força. Se no tecido você ver algum sentido retilíneo da trama, tente esfregar nesse sentido. As ranhuras do tanque são boas para desprender a sujeira em geral, não as manchas localizadas. Pede-se que tenha uma escova exclusiva para as camisas porque, com o tempo, nossas mães, esposas ou empregadas acabam usando também e então esse desgaste tira o efeito. Evite esfregar com força partes bordadas e também alguns transfers, pois com o tempo podem se desgastar ou desfiar/desprender.

O “crime” do colarinho branco: as golas brancas, apesar de mais elegantes, tendem a ser as mais problemáticas, se feitas de algodão. A começar porque o clima de nosso país propicia a gente a suar facilmente, e em geral nosso suor sai com um pouquinho de gordura (se tiver pele oleosa, um pouquinho mais), o que pode marcar a gola. Pra limpar, a boa é usar sabão mesmo e esfregar com uma escovinha. Um problema sério acontece quando o colarinho da camisa é branco, mas o resto é de outra cor, sendo a peça de algodão. Dependendo de que tipo de tingimento foi feito na malha colorida, muito provável que a água colorida escorra e vá manchar a gola.

Pra evitar isso, duas alternativas: ou você coloca um pouco de sal na água (se a peça não tiver transfers, uma colherinha cheia por balde), que evita (mas não garante) das cores migrarem, ou deixa a gola pra fora do balde enquanto esta estiver de molho. Já houve caso em que eu tive que descosturar a gola branca (que ficou tingida), lavar com água sanitária e costurar de novo na peça, como nessa camisa da França da foto, e também outro nessa camisa do Boca Juniors à direita, em que tive que comprar outra malha ribana (de gola) da mesma cor e substituir, devido ao forte tingimento azul que invadiu gola amarela…

france-86-home
Se você deixar sua camisa de gola branca com a marquinha de sujeira e não cuidar de lavar, essa pode ficar amarelada na peça, se tornar uma mancha e, em casos mais extremos, até ser corroída! Não é brincadeira, já que aquilo lá é gordura e você guarda no seu armário, onde os ácaros e bactérias a encontram e acham aquilo um banquete, depois de comer toda a gordura que você deixou na gola, eles defecam (isso mesmo, pense nisso) e esse “cocôzinho de bactéria” é uma coisa ácida. Pense nisso também.

Punho de jaqueta sujo: já que a jaqueta ou casaco é um material grosso, e seu punho ainda mais, se você não tá conseguindo remover uma mancha de forma gentil, acho que você pode tentar usar uma escova mais grossa, daquelas de jeans, mas só se necessário água meio quente com pasta de sabão também ajuda.

Secagem: a regra básica é não secar exposto ao sol. Todas as camisas com aspecto de velhas, desgastadas e desbotadas que vemos por aí foram vítimas dessa sandice. Não tenho certeza, mas creio que isso possa também provocar ressecamento e rachadura das aplicações em transfer, e também desgaste nas aplicações felpudas, flocadas. O legal é secar num varal à sombra. Pra caber mais, e pra já ir desamarrotando, eu costumo estender no varal a peça já pendurada no cabide. Máquinas de secar roupa, eu infelizmente não tive o prazer (ou corri o risco) de usar, mas é bom tomar cuidado, já que a alta temperatura pode ou alterar o estado da fibra sintética, ou das aplicações.

Torcer: depois de lavar, evite torcer. Enrole a peça como uma corda e vá pouco a pouco espremendo cada parte dela com toda sua força. Se você ficar torcendo, ela pode esgarçar e então vai ficar cada vez mais com aspecto de velha.

Dica: ao deixar secando num cabide pendurado no varal, em poucos minutos a água vai migrar pra parte da barra da camisa (a parte de baixo). Pendure a camisa, dê uns 10 ou 15 minutos e esprema essa barra e os extremos das mangas pra tirar o excesso d’água.

Passar ferro: em tempos de camisas de material sintético, passar ferro nelas pode ser uma tarefa de alto risco. Camisas de algodão precisam sim de um aparato desses, porque amarrotam muito facilmente, mas as sintéticas tendem a ficar “passadas” naturalmente, ainda mais se quando secarem já estiverem penduradas num cabide. Se mesmo assim você insiste em passar suas peças, aconselho antes de tudo a usar uma potência baixa, e ter paciência, porque a tarefa pode demorar. Você até pode tentar aumentar gradativamente a temperatura, mas vá tentando isso passando apenas a pontinha do ferro nas extremidades. Outra dica boa é passar pelo avesso, pois se der alguma zebra do avesso, ainda há chance de não aparecer do lado direito, sem contar que a ação do ferro em camisas de algodão promove um certo desgaste e, antes desgastar a aparência do lado avesso do que o que aparece, né? Se a camisa tiver aplicações em transfer, nem tente passar ferro do lado direito. Você vai derreter a aplicação e destruir sua peça em segundos.

Guardar no cabide ou manter dobrada?

O cabide em primeira instância parece ser uma forma prática e elegante de guardarmos nossas camisas, mas às vezes pode trazer alguns problemas.

Se o material das camisas em questão for de natureza flexível (como as malhas), há sim uma chance de, com o tempo, o peso da camisa “puxá-la”pra baixo e concorrer com a curva dos ombros que tem no cabide. Se esta não acompanhar a forma normal de um ombro (como nos cabides de paletó -foto à direita) você pode passar a notar a presença de algo como que um calombo levantado na camisa um pouco antes do ombro na hora que usar. Em materiais sintéticos em geral, ainda há uma tendência de, mexendo aqui e ali, voltar ao normal, mas se a peça for de algodão pode dar nisso.

dsc06795
Diante do quadro mostrado acima, a tendência natural é acreditar que a solução é manter a peça dobrada. Em parte sim, mas você vai ter que ter a cautela de proteger essa peça da exposição direta à luz. Por quê? Porque todo tecido sofre reação química ao contato constante com a luz e, assim como uma foto fica amarelada com o tempo, essa região da dobra que ainda tem contato com a luz, pode desbotar e criar uma “faixa” mais clara na sua camisa. É mais ou menos por isso que pinturas em museus não podem receber flash de máquinas fotográficas.

Conservação a longo prazo:

O armário pode ser um local bom para proteger as peças da fuligem, poeira e outras partículas suspensas no ar, mas lá dentro também é um “ecossistema’ à parte, com bactérias, fungos e ácaros passeando sem a gente ver. Se é uma peça que você não usa mais com tanta frequência, mas sabe do potencial econômico dela com o passar dos tempos, e quer conservá-la, o legal é guardá-la dobrada dentro de um saco plástico, como aqueles que vêm com as camisas novas (tipo o da foto ao lado. Local sem luz, seco e arejado também contribuem.

Bom, por hora é só isso o que eu tenho a dizer, mas acredito que a coisa não para por aí. Isso é só um artigo para incentivar colecionadores a debaterem sobre o time, trocar ideias, dicas, adicionar observações à esse “tutorial”. E então, gostaram?

Abraços a todos e muito cuidado com suas “peças”.

Confira a versão original desse texto, com várias dicas de leitores em comentários.


// Categorias

// Histórico de Publicações

// As mais lidas

Quer ser o primeiro a receber nossas novidades por e-mail?

// TV Verminosos

// Tags

Compartilhe: